Devia fazer uns 40°. Apesar do calor, ventava muito.
Aos poucos, a garota faceira foi mudando de semblante. Os cabelos se reviraram, a pele suava, a blusa já ñ parava debaixo da saia e a saia? A saia já ñ estava igual.
Os pés doíam muito, sapato novo encheu-os de bolhas.
Até em fim chegar ao destino, cansada, suada e desajeitada. O que poderia ser pior?
Sim, sim...a meia, a meia desfiou! Oh raios!
Todos os sábados eram iguais, naquela mesma hora eu saia pra encontrar meus amigos do grupo de jovens. Meu coração se enchia de alegria.
Naquela tarde senti o desejo de me arrumar diferente do que costumava. Estava sempre de jeans, camiseta branca e tênis. Já tinha 16 anos e queria me vestir como mocinha.
É! Não correu bem. Por fim a mini-saia e a blusinha de viscose ficaram abandonadas no guarda-roupa da garota desajeitada. O sapatinho boneca? Ah! Esse amaciou na marra. As madeixas longas me acompanharam até os 18 anos.
Admitamos que vestir-me como bonequinha de gesso não poderia mesmo dar certo. Lá a gente pulava, cantava, rezava, brincava... Éramos um grupo grande, cerca de oitenta jovens. Eu brincava com todos, adorava fazê-los rir com minhas imitações, a minha favorita era Ilca Tibiriça: Oh! Lindinha da titia.
Eu sempre tinha uma nova personagem, mas Ilca era a que eu melhor incorporava, com seus trejeitos e falas. Tinha também a Santinha Imaculada: Era uma vez, num reino muito de distante daqui...Tinha um príncipe muito de bonito, num sabe?
Brincar com a voz, com a expressão corporal, era tudo muito gostoso. Por isso não dava pra ficar engomada... rsrsr.
Hoje, uma foto antiga postada por um amigo no face, me fez lembrar daquela época. Eu nem estava na foto, mas sim alguns amigos do grupo. Sinto tanta falta daquele tempo, daqueles jovens, da minha alegria e dos sonhos que eu tinha. Senti-me mal por perceber que já tenho 35 anos, que estou envelhecendo e, que não realizei nenhum dos sonhos que eu carregava comigo. Hoje faço parte daqueles adultos chatos e estressados que eu desejava não ser.
Olho pros amigos daqueles tempos e vejo o mesmo semblante cansado que vejo no meu espelho.
Nós éramos aqueles que iam mudar o mundo, mas, por fim, o mundo foi quem nos mudou. A menina que se encontrava na arte se perdeu. A arte se perdeu.
É, hoje a melancolia tomou conta de mim. Desejava voltar no tempo e reescrever algumas linhas. Sinto falta daquela felicidade inocente, dos amigos, dos sonhos, das brincadeiras, da arte e da juventude. Sinto muita falta daquela Mari moleca, que imitava tudo e todos, que subia na carteira da sala de aula pra cantar pros amigos, que acreditava ter o poder da cura nas mãos...rsrsrs...é, sinto falta até da Mari fanática religiosa. Pode isso?
Sinto falta da Mari que adorava escrever, desenhar, cantar, representar, desfilar... Daquela menina meiga que se escondia na arte pra disfarçar a timidez. Cadê você Mari??? Cadê você Ilca, Imaculada, Mary Matoso, Rosana, Sula Miranda, Sandy...Simony!
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